Você acorda decidido. Chega dessa vida de concurseiro! É
hora viver! Pega as malas. Coloca tudo sobre a cama e vê. Vê que sua bagagem
toda é feita de livros. Procura os seus documentos e só encontra as suas
anotações de cursinho. E as anotações do colega que lhe emprestou as folhas pra
tirar xerox.
Você desce as escadas agitado. Sem querer, esbarra na
vizinha. E ela? Ela o xinga dos mais variados nomes. E você? Você a ouve e
pensa: "isso é injúria, ação penal privada, prazo decadencial de 6 meses,
indenização por danos morais, mero dissabor da vida em sociedade." Mas
você a ignora, perdão tácito.
E continua... vai ao carro. E, no banco de trás, aquele Vade
Mecum todo riscado, mas novo. Deste ano mesmo. Desgastado pelo uso, e não pelo
tempo, como todo Vade Mecum de um estudioso do Direito deve ser.
Você liga o carro e decide ouvir uma música. Quando liga o
som, ouve o CD daquela aula gravada.
No caminho para a casa dos seus pais, um buraco na rua.
Você, sortudo como sempre, passa em cima. E já começa a culpar a prefeitura,
pensa no IPVA que você paga. E... Opa, opa, opa! Você, automaticamente, se
corrige: "IPVA é do Estado, anta! E não do município. Imposto é tributo
não vinculado." Blá, blá, blá.
Você chega ao prédio dos seus pais e uma outra vizinha
"linda" está usando a sua vaga na garagem. Exatamente a SUA vaga. Aí,
você já vai confabulando: "reintegração de posse, desforço imediato,
vizinha de uma..." Sem injúrias, por favor.
Nessa hora, cai a ficha. E no cair da ficha, você se
levanta. Você, em um piscar de olhos, percebe o que era perceptível "ictu
oculi". Não adianta sair de casa. O Direito já mora dentro de você. Ser
Servidor Público é um sonho. E sonhos são difíceis de matar. Você pode até
tentar, mas essa tal semente é forte, em forte.
Em uma das passagens mais tristes do "Livro do
desassossego" de Fernando pessoa, o pseudônimo diz: "fui gênio mais
que nos sonhos e menos que na vida. A minha tragédia é esta. Fui o corredor que
caiu quase na meta, sendo até aí o primeiro". Você não vai cair quase na
meta. Você tem que desistir de desistir. Um dia o sonho nasceu dentro de você.
Fazer o que? O "filho" é seu! Agora, você vai ter que cuidar.
Seu irmão quis ser médico, seu primo engenheiro, e daí? Cada
um que cuide da sua "criança". E você cuidará da sua. Ame o direito.
Ame a profissão que você escolheu. Ame a vida. O amor torna tudo mais belo.
Tudo mais simples. Um pai passa a noite acordado com o filho no hospital sem
sentir sono. Por quê? Porque o amor torna o sacrifício pequeno. E é difícil
dormir enquanto o filho não está bem. E você? Cuide do seu "filho".
Se for preciso, passe uma noite de "plantão". Se for necessário,
abdique da cerveja com os amigos na quarta para alimentar seu
"filho". Seu sonho merece mais da sua atenção!

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